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quinta-feira, 30 de março de 2017

Em livro, preso narra o que sentiu e como viu o 'massacre de Alcaçuz'

'A Escolha Errada', a primeira de cinco obras, deve ser publicada este ano.

Paulista, Newton Albuquerque está há 8 anos no maior presídio do RN.
Penitenciária Estadual de Alcaçuz, maior presídio do RN, foi palco de matança em janeiro (Foto: Andressa Anholete/AFP)

Paulista, publicitário, 43 anos. Newton Albuquerque Gomes de Andrade também é autor de cinco livros. O primeiro deve ser publicado ainda este ano. "É a realização de um sonho", afirma. Porém, quem imagina um homem de carreira ascendente e bem-sucedido, vai se surpreender com o rumo inverso que a vida dele tomou. A oportunidade de conhecer esta história está na obra ‘A Escolha Errada’. Além de revelar como o autor foi parar no maior presídio do Rio Grande do Norte, o livro ainda traz um capítulo especial que só foi incluído agora. Chama-se ‘Massacre Sangrento em Alcaçuz’.

O G1 teve acesso exclusivo ao capítulo. O texto, que contém passagens que ainda serão editadas, narra com detalhes o que Newton viu e sentiu na tarde de 14 de janeiro deste ano, quando duas facções rivais se confrontaram dentro de um dos pavilhões da unidade. Pelo menos 26 presos foram brutalmente assassinados. Destes, 15 tiveram as cabeças arrancadas. Corpos também foram esquartejados e depois queimados. O episódio é o mais sangrento da história do sistema prisional potiguar.

O autor

Newton Albuquerque foi preso em outubro de 2008 em Jenipabu, uma das mais belas praias do Rio Grande do Norte. Era a quinta viagem que ele fazia transportando drogas de São Paulo para o Nordeste. Na ocasião, foi flagrado com 200 quilos de crack e outros 100 quilos de cocaína. Perdeu? Perdeu a droga, não ganhou dinheiro algum, ficou desempregado, não voltou para casa e ainda deu adeus à liberdade. Ganhou? Ganhou 20 anos e nove meses de cadeia e um novo endereço: Alcaçuz. A penitenciária fica em Nísia Floresta, na Grande Natal, distante 3 mil quilômetros da capital paulista.
‘A Escolha Errada’, de Newton Albuquerque,
deve ser publicado ainda este ano
(Foto: Divulgação)

Os livros de Newton foram escritos na cela de número 22 do setor médico da penitenciária, uma ala considerada tranquila. Lá, estão encarcerados presos que ajudam na cozinha e na limpeza da unidade. Lá também ficam detentos que são ex-policiais, presos que participam de atividades religiosas, condenados que cometeram crimes de violência contra crianças, estupradores... Enfim, é a casa dos apenados que, se forem colocados nos demais pavilhões da penitenciária, certamente terão problemas de convivência – seja pelas atividades que desempenhavam fora do presídio ou por optarem em não participar de nenhuma facção criminosa.

E foi de lá, numa caminhada de rotina pelo setor médico, que Newton vivenciou um medo jamais sentido. “O que aconteceu é algo que até eu, que já sou interno há oito anos, não consigo explicar. Mesmo convivendo nesse ambiente carcerário, e sabendo que é de praxe presenciar cenas assustadoras, as que assisti deixam realmente claro a calamidade do sistema carcerário. Não só o norte-rio-grandense, mas de todo o Brasil que acompanha quase todos os dias os problemas crônicos de um sistema que se tornou uma fábrica de preparar membros para facções criminosas”, escreveu.
Pelo menos 26 presos foram mortos durante as rebeliões de janeiro em Alcaçuz (Foto: Divulgação/PM)

O início

Além do testemunho do medo e tensão de quem estava presente quando estourou a rebelião, o capítulo sobre a matança também relata como tudo começou. “O sábado, dia 14 de janeiro, estava normal. Era mais um final de semana onde as famílias adentram o complexo para visitar os seus parentes que aqui cumprem suas penas impostas pela Justiça. Aparentemente, tudo se encontrava em absoluto controle. Por volta das três horas da tarde, os visitantes começaram a deixar o presídio para voltar às suas residências. Os internos do pavilhão 5, fortemente armados com facas, pedaços de ferros, de paus e acredite, até com armas de fogo, invadiram o pavilhão 4, que ficava ao lado em uma distância insignificante, onde abrigava membros da facção rival que são inimigos mortais, para realizar uma matança monstruosa”, narrou.

Ainda de acordo com o preso, a rixa entre os presos do 'PCC' e do 'Sindicato do Crime do RN' também deixou os agentes penitenciários de Alcaçuz em pânico, principalmente quando viram um dos colegas passar por maus momentos. “Um companheiro havia ficado para trás no meio daquela confusão toda, correndo um sério risco de perder a sua vida. Mas, graças a Deus, ele foi resgatado sem nenhum arranhão”, afirmou Newton.

Em meio aos relatos, Newton também escreve que não queria fazer parte daquela barbárie, e diz que sentiu muito medo. “Não queria participar daquilo. Pedia a Deus para cessar, mas quanto mais se ouvia gritos, mais se escutava tiros que vinham das guaritas. Agentes penitenciários e policiais militares tentavam conter o avanço. A precaução era não deixar o confronto acontecer no setor médico, para não ocorrer mais uma carnificina. E eu estava ali, naquele meio”.

Maior penitenciária do RN, Alcaçuz virou campo de batalha (Foto: Andressa Anholete/AFP)

Inferno

Em outro trecho do capítulo sobre a matança, Newton também recorda de ter visto imagens gravadas pelos próprios presos que mostravam cenas da carnificina, vídeos feitos por meio de aparelhos celulares. “Uma hora depois do acontecido já podíamos ver vídeos que rolavam na internet e que mostravam os corredores da cadeia, com cenas de extrema barbárie, vários internos amontoados mortos, muitos deles decapitados, estraçalhados com uma brutalidade comparada aos radicais do estado islâmico”. E acrescentou: “Em um desses vídeos, um preso tentava tirar com as mãos algo como se fosse o coração da vítima. Meu Deus, a cena era fortíssima. Eu não aguentei. E depois que assisti tive a certeza absoluta de que o inferno era mesmo em Alcaçuz”.

Com medo de morrer, Newton conta que também se armou. Para se defender, no entanto, não usou faca, barra de ferro ou revólver. Sua vida, segundo ele mesmo, dependia de algo menos ofensivo. “Segurando a minha arma que era apenas um pedaço de madeira, fiz uma pequena reflexão: meu Deus, por que essas pessoas se matam desta maneira? Por que tanto ódio, tanta raiva ao ponto dessas crueldades? Por que eu, que não pertenço mais ao crime, preciso passar por isso? Por que ainda não deixei esse inferno?”.
Newton digitaliza tudo o que escreve em um
notebook que ganhou de presente de um juiz
(Foto: Reprodução/ Inter TV Cabugi)

Escolha errada

Além de 'A Escolha Errada', também aguardam publicação 'O Pequeno Gênio', 'Anjos do Parque', 'Playboys do Crime' e 'Quatro Estações'. Todos foram escritos à mão. Depois, as obras foram digitadas em um notebook. O computador portátil, que não tem acesso à internet, foi presente de um juiz.

Especialista em segurança pública e um dos coordenadores do instituto Observatório da Violência do RN (OBVIO), Ivênio Hermes é quem está editando as obras de Newton. Ele enaltece o esforço do publicitário. “Quem quer se reabilitar, precisa de incentivo e ferramentas para isso. São pessoas que podem voltar à sociedade como membros produtivos dela. O sonho delas precisa se realizar para que outros possam ver que o exemplo é digno de ser seguido”, disse.

"Eu fiz uma escolha errada na hora de trazer a droga. Mas, uma pessoa simples pode fazer a escolha errada na hora de comprar uma roupa, um tênis, até em um relacionamento. Todos nós, seres humanos, vamos fazer uma escolha errada em nossas vidas. Eu fiz a minha. Então, eu conto a escolha errada que fiz neste livro que é para servir de exemplo. O crime não compensa", disse Newton Albuquerque.
Do G1 RN