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quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Um ‘Doce de Mãe’ aos 84 anos


22 de Janeiro de 2014 

Roberta Pennafort

Um ano e um Emmy depois, Dona Picucha está de volta. A intrépida personagem apresentada no telefilme da Globo Doce de Mãe, que deu o prêmio máximo da TV mundial a Fernanda Montenegro, é o centro de uma série em 14 capítulos que estreia no dia 30 deste mês. As gravações, no Rio e em Porto Alegre, têm sido extenuantes - dez horas por dia, praticamente todo dia. Aos 84 anos, Fernanda não esmorece.
fábio rebeloFernanda: Quando se tem herdeiros, você se vê 200 anos adianteFernanda: Quando se tem herdeiros, você se vê 200 anos adiante

“Se eu disser que fico exausta, estou mentindo, e se disser que não fico, também. Tenho uma disponibilidade e uma preparação metal e física praticamente há 70 anos, e muitas vezes juntando teatro, TV e cinema. É uma estrutura de atleta mesmo, não tenho pudor de dizer”, diz a atriz, citando colegas também na casa dos 80 com o mesmo vigor: Nathalia Timberg, Laura Cardoso, Lima Duarte, Ary Fontoura...

O diretor, Jorge Furtado, conta que Fernanda não descansa sequer nos dias de folga. “A gente ficou gravando sem parar e quando teve um único dia livre, toca meu telefone e era ela perguntando: ‘Vem cá, na cena 18...’. A Fernanda estuda o roteiro na folga! É mesmo um ponto fora da curva”.

Autor do texto, Furtado juntou histórias de sua própria família (mães, tias) e de conhecidos e criou em cima delas para chegar às situações do cotidiano de Picucha e sua prole. A questão central do telefilme, quem vai ficar com a matriarca depois que a empregada, sua única companhia, a deixa, para se casar, continua no ar. As novas peripécias incluem uma passagem breve por uma casa geriátrica, a apresentação de um programa de TV e a descoberta de segredos do falecido marido.

A vida dos filhos (Louise Cardoso, Marco Ricca, Mariana Lima e Matheus Nachtergaele) se mistura à dela numa simbiose levada de forma leve e divertida. Picucha é o retrato da mãe/avó brasileira - daí os bons números de audiência alcançados -, que age intuitiva e muita vezes desastradamente, sempre buscando ver felizes os seus. “É um personagem meio mágico, uma fada. Num país que cultua a juventude, a gente não vê muita protagonista da terceira idade. Mas esse é um assunto que está presente na vida de todo brasileiro: o que fazer com os nossos velhos?”, acredita Furtado.

Fernanda não gosta da palavra “velho”. Tampouco da expressão “melhor idade”. “Não é a melhor, é uma idade que tem as suas características. Mas não é uma anátema, um caminho para uma finitude. Quando se tem herdeiros, você se vê pelo menos 100, 200 anos adiante. Mas também pesa a perda das pessoas que vêm com você pela vida. Cada amigo que vai embora é uma memória que vai junto. Olho em volta e vejo que as pessoas mais próximas de mim, na vida profissional e nas amizades, já não estão mais.”
Tribuna do Norte

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